Quantidade de resíduos no Centro de Belo Horizonte cresce 65% em 11 anos

Fonte: Jornal Estado de Minas | Autora: Valquiria Lopes | Publicação: 25/08/16

O lixo produzido e coletado no Centro de Belo Horizonte engrossa uma estatística preocupante dos pontos de vista econômico e ambiental. Com percentual de crescimento muito acima do verificado na produção de resíduos retirados mensalmente em toda a cidade, os materiais descartados por residências, comércios e demais estabelecimentos localizados dentro dos limites da Avenida do Contorno atingiram índice alarmante neste ano. Dados da Superintendência de Limpeza Urbana de Belo Horizonte (SLU) mostram que a média mensal de 6.403 toneladas coletadas no Centro, nos sete primeiros meses de 2016, é 65,5% superior às 3.868 toneladas recolhidas mensalmente na região em 2005.

Para especialistas, o quadro é preocupante e exige intervenção imediata do poder público para implantação de coleta seletiva e de campanhas de conscientização para o consumo consciente. Em relação ao lixo coletado em toda a cidade, a média mensal este ano subiu 30,1% em uma década, apesar de o volume ter sido menor em relação a 2015.

Os índices que traduzem a realidade da coleta domiciliar na capital mineira são também superiores à média nacional apontada no Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Segundo o levantamento, o crescimento da geração de lixo observado no país foi de 25% no intervalo entre 2005 e 2014. O diretor-executivo da Abrelpe, Carlos Silva, afirma que a elevação de 65% somente no Centro de BH é alta e merece a atenção do poder público. “Está muito acima da média da cidade e também do Brasil. É mais que o dobro. É preciso que a administração municipal verifique o que levou a esse aumento e interfira para controle dessa produção de resíduos”, defende.

Entre as possíveis causas para explicar o crescimento do lixo coletado na Região Central de BH, Carlos lista o aumento populacional, o desenvolvimento da cidade, os aumentos da renda e do poder de consumo, bem como a mudança de hábitos da população na hora de ir às compras. “É preciso observar que o Centro de uma grande cidade, como é Belo Horizonte, concentra uma série de serviços, comércios, além de ser uma zona de passagem. Mas o crescimento registrado na área central de BH está muito acima da média”, alerta.

Gastos extras com manutenção

O diretor-executivo lembra que a progressão rápida na geração de resíduos resulta em maior prejuízo ambiental, além de gerar cada vez mais impacto para os cofres públicos nos gastos com varrição, coleta, transporte e acondicionamento desses materiais. Desde 2008, quando o aterro da BR-040 teve sua capacidade esgotada, todo o lixo de Belo Horizonte passou a ser levado para o Aterro Macaúbas, em Sabará. O espaço particular foi a solução encontrada pela PBH para destinar seus resíduos. “Esse trabalho, desde a coleta até o destino final, tem um custo por viagem, que aumenta com o crescimento da produção da quantidade de lixo”, explica.

Assim como Carlos, especialistas lembram da importância de políticas públicas que possam reduzir a quantidade de lixo. Na avaliação da doutora em resíduos sólidos Cynthia Fantoni, pesquisadora do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), faltam incentivos para a programas de reciclagem e para a implantação de indústrias que possam receber e tratar esses materiais. “Em Belo Horizonte, a coleta seletiva tem muito baixa cobertura e atinge apenas alguns bairros da cidade. O poder público pode interferir diretamente na quantidade de lixo gerado e coletado, mas precisa rever suas políticas”, afirma Cynthia. Dados da Abrelpe mostram que grandes cidades têm capacidade para reciclar até 30% do lixo que produz. Em BH, esse percentual está em torno de 10%. “Para aumentar, precisa haver investimento e campanhas que levem a população tanto a reduzir quanto a separar o lixo que produz”, afirma Carlos Silva.

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FALTA EDUCAÇÃO

Enquanto o trabalho não avança, crescem as pilhas de entulho no coração da cidade. Morador do Centro há 35 anos, o diretor da Associação de Moradores e Amigos da Região Central de BH (Amarce), Hamilton Carneiro Elian, diz acompanhar a evolução do lixo produzido na região. “A quantidade na porta dos prédios e comércio é maior a cada ano, bem como a sujeira que fica acumulada na rua. Essa situação é muito degradante e afeta negativamente uma região que já é alvo de muitos outros problemas urbanos”, comenta, lembrando que, além de intervenção do poder público, falta educação às pessoas.

Por meio de nota, a SLU informou que a comparação dos números que mostram o crescimento da produção de lixo na área interior da Avenida do Contorno deve levar em conta variáveis, como o aumento da população, replanejamento dos distritos de coleta, variação na ocupação do solo urbano (verticalização, novas moradias, estabelecimento de comércio), mudança de comportamento das pessoas e de empresas (maior ou menor produção e consumo de bens descartáveis), entre outras. Segundo o órgão, é preciso considerar ainda o aumento da população flutuante e entender que BH é considerada uma cidade-dormitório para considerável parte da população do Centro, além da realização de eventos que reúnem maior ou menor público vindo de fora, a exemplo do carnaval e da Virada Cultural.

Sobre o Hipercentro, a superintendência esclareceu que o serviço de coleta de lixo na região é diário (de segunda a sábado), a partir das 20h. “Trata-se de uma área prioritária por causa da grande circulação de pessoas”, informou a SLU por meio de nota. Já a varrição é feita três vezes ao dia (manhã, tarde e noite), inclusive nas praças Sete, Rio Branco e Raul Soares.

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